terça-feira, 30 de novembro de 2004

TODOS FÃS DO FAM

O oitavo FAM – Florianópolis Audiovisual Mercosul impressionou pelo seu crescimento em relação aos outros anos. Desta vez a mostra foi no CIC, e o auditório de quase mil lugares permaneceu lotado durante essa primeira semana de junho. Euzinha aqui tive a sorte de ser jurada dos curtas 35 mm, e posso dizer que o nível dos filmes, em geral, foi excelente. Nós do júri sofremos um pouco pra selecionar um dos dois melhores curtas, que ficaram entre o paulista "A Lata" e o carioca "Nada a Declarar". No final acabamos elegendo mesmo o primeiro, que fala de um sujeito que sobrevive recolhendo latinhas de alumínio. Mas demos o prêmio de direção para o segundo, um monólogo muito provocativo. Outros curtas praticamente tão bons quanto, e que também premiamos, foram "Clandestinidade" (que foi eleito pelo júri popular), "Onde Quer que Você Esteja", o documentário "Restos", e a animação dos alunos da rede pública de Vitória, "Portinholas". Um curta que eu particularmente adorei, e pra qual demos o Prêmio Eletrobrás, foi o uruguaio "Fábrica de Enanos" (ou seja, de anões), um exercício hilário sobre a vida de anões de jardim. Demos uma menção honrosa para o catarinense "O Santo Mágico" por, hum, ser catarinense, já que é preciso prestigiar a produção local (o filme tá bem feito mas é fraquinho). Esses curtas vencedores vão circular por Santa Catarina em mostras itinerantes. Quando passarem aí na sua cidade, não deixe de ir.

Já a mostra não-competitiva de longas apresentou filmes de menor qualidade que a de curtas, pelo menos na modesta opinião desta que vos fala. O argentino "Cleópatra" é comovente, principalmente pelo show da atriz Norma Aleandro, e foi, junto ao seu belo conterrâneo "Histórias Mínimas", o grande destaque da semana. Mas, pra provar que nem tudo no cinema argentino é maravilha, veio a comédia romântica extremamente comercial "Apaixonadas", uma baboseira inominável. Outra decepção foi a pornochanchada chilena "Sexo Com Amor". O documentário uruguaio "Aparte" demonstra como os pobres latino-americanos são parecidos, mas, apesar do tema nobre, o filme deixa a desejar. Dos nacionais, o melhor disparado foi "Glauber o Filme, Labirinto do Brasil", documentário muito engraçado de Silvio Tendler sobre um de nossos maiores cineastas. Menos felizes foram "De Passagem" e – hors-concours – a última realização de Rogério Sganzerla, "Signo do Caos", uma chatice sem dó de quem não saiu dos anos 60, bem no estilo "o diretor é genial, mas o filme é uma m****". Claro que o FAM é ótimo, e todos nós cinéfilos desejamos que ele dure pra sempre.


OS CURTAS 35 MM PREMIADOS


Eu e mais quatro juradas da categoria Curta-Metragem do 8º Florianópolis Audiovisual Mercosul, realizado de 28 de maio a 4 de junho, premiamos os seguintes filmes em 35 mm:


Melhor Filme: A Lata, de Leopoldo Nunes (SP)

Melhor Direção: Nada a Declarar – Gustavo Acioli (RJ)

Melhor Fotografia: Eternamente – Alziro Barbosa (PR)

Melhor Montagem: Ópera Curta – Eduardo Nunes e Marcelo Laffitte (RJ)

Melhor Trilha Sonora: Portinholas – Alunos da Rede Municipal de Vitória (ES)

Melhor Direção de Arte: Jonas – Guga Feijó e Luciane Nicolino (RJ)

Melhor Ficção: Clandestinidade, de Rodrigo Guéron (RJ)

Melhor Documentário: Restos, de Cristina Maure e Pablo Lobato (MG)

Melhor Animação: Portinholas, dos Alunos da Rede Municipal de Vitória (ES)

Melhor Roteiro: Onde Quer que Você Esteja – Bel Bechara e Sandro Serpa (SP)

Melhor Ator: Augusto Madeira, por Clandestinidade (RJ)

Melhor Atriz: Débora Duboc, por Onde Quer que Você Esteja (SP)

Menção Honrosa: O Santo Mágico, de Ronaldo dos Anjos (SC)

Menção Honrosa: Infinitamente Maio, de Marcos Jorge (PR)

Prêmio Eletrobrás: Fabrica de Enanos, de Diego Fernández (Uruguai)

Prêmio Quanta e Prêmio Kodak: A Lata, de Leopoldo Nunes (SP).

NADA MAIS TEDIOSO

Sejamos sinceros: a festa do Oscar 2004, que consagrou “Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei”, foi um porre só. Não houve um só discurso polêmico, uma piadinha hilária, um número espetacular, nada. Até o Tim Robbins, considerado um crítico ferrenho à doutrina Bush, deixou a política de lado e veio falar às vítimas infantis de abuso sexual. Que é isso, Tim? Foi tudo tão, mas tão chato, que o público só se dispôs a aplaudir de pé dois carinhas, o Blake Edwards e o Sean Penn. A Academia tava louca pra premiar o Sean, que há uma década e meia, por aí, é visto como o melhor ator de sua geração. Mas a disputa com o Bill Murray não deve ter sido fácil. Não seria mais interessante se revelassem quantos votos cada um recebeu? Assim a gente saberia se “Cidade de Deus” perdeu nas quatro categorias a que concorreu por muito ou por pouco. Em três delas, ele disputava diretamente com “Senhor dos Anéis”, que ganhou tudo, mas em Fotografia foi perder logo pro “Mestre dos Mares”?! Óbvio que a culpa não é de “Cidade”, mas de votantes cretinos que não conseguem distinguir entre algo de qualidade e os clichês de sempre. Bom, pelo menos o Fernando Meirelles, no melhor estilo “Ói nós aqui”, deu um alôzinho pra câmera quando os indicados a melhor diretor foram enquadrados. O gesto dele foi uma graça, mais adequado ainda que a banana que toda aquela cerimônia babaca merecia.

Pois é, nem o fã mais exaltado de “Senhor dos Anéis” poderia imaginar que a parte final da trilogia sairia com 11 estatuetas, empatando com o recorde de “Titanic” e “Ben-Hur”. Como disse o Billy Cristal, foi uma indicação pra cada final do filme. Que eu me lembre, a única outra obra a realizar este feito recentemente – ganhar em todas as categorias a que foi indicada – foi “O Último Imperador”, em 88. Agora, minha dúvida é: a legião de fanáticos de “SdA" ameaça TODOS os votantes de morte? Ou eles realmente gostam desses troços élficos? Não me entenda mal, eu vendi minha alma, apostei no Épico do Tédio pra quase tudo e ganhei o bolão. Mérito meu? Não, demérito da Academia, que parece ter acionado o piloto automático na votação.

A situação da festa já andava complicada quando decidiram interromper o show pra mostrar três das cinco canções indicadas. Todas idênticas. Nessa hora o maridão entrou em coma profundo, e a audiência mundial deve ter caído em três quartos, no mínimo. Pior que isso, só os comentários do Rubens Ewald Filho no SBT. O sujeito, de quem geralmente gosto e respeito, não acertou uma. Disse que a Charlize Theron ganhou o Oscar de Melhor Atriz por se enfear (o que é ridículo, basta conferir as últimas vencedoras pra constatar que a premiação segue o padrão “bela e jovem”: Gwyneth Paltrow, Hilary Swank, Julia Roberts, Halle Berry, Nicole Kidman), que “SdA" era um filme pequeno... O festival de besteiras que assola a nação teve seu ápice quando ele chamou o épico de “Senhor dos Anais”. A explicação do maridão foi que o Rubens deve ter tomado algo pra não dormir, e isso acabou afetando seu cérebro. Essa sim é uma boa aposta.

CRÍTICA: PELÉ ETERNO / Oba oba cansativo

Não me entenda mal: não é que eu não gostei de “Pelé Eterno”. É só que, depois de uma hora de documentário, minhas defesas cederam e eu me entediei um pouco com toda aquela babação. Claro que com um título desses eu não esperava uma obra crítica. Mas não daria pro diretor Aníbal Massaini dourar menos a pílula? A gente precisa mesmo ouvir que Pelé é rei, gênio, craque, poeta da bola, maestro, e não sei mais o quê? O filme exagera nos elogios justo pro carinha que menos precisa deles. E, acima de tudo, não dava pra cortar o texto do Armando Nogueira? Lá pelas tantas, nosso comentarista esportivo metido à poeta diz algo como “se Pelé não tivesse nascido gente, teria nascido bola”. Olha, em se tratando de Pelé um clichê desses pode até cair bem. Mas se alguém falasse isso pra mim ia sair tapa! Vale a pena comparar uma das dezenas de bobagens armandonogueirísticas com o que declara um poeta de verdade, o Drummond: “Fazer mil gols como o Pelé é fácil. Fazer um gol como o Pelé é que é difícil”. Algo assim.

E mesmo o grande hino de exaltação acima já seria desnecessário, porque temos as imagens. O filme mostra uns 400 gols do Pelé, e eles dão uma boa idéia de como e porque o homem virou mito. Não acredito muito que um documentário precise ser objetivo (existe neutralidade?), mas, quando ele vira uma biografia chapa-branca, ele deve se apresentar como tal. O que se vê são montes de depoimentos louvando o sujeito e uma vasta manipulação dos fatos. Por exemplo, chega uma hora em que o Pelé diz que não é um bom empresário porque confia demais nas pessoas. Sabe aquela história de querer parecer humilde se auto-criticando quando a gente tá no fundo se auto-elogiando? Soa falso. Ou, sei lá, o filme menciona o primeiro carro que Pelé ganhou. Ahn, não seria o caso também de mostrar o fusquinha que Maluf deu, com o nosso dinheiro, pra cada jogador tricampeão? Como que um documentário pode entoar o jingle de 70 (Pra frente Brasil etc) e ignorar a existência da tortura do Médici?

É evidente que há anedotas divinas, como a que trata de um juiz que expulsou o Pelé de uma partida e acabou ele próprio sendo expulso, ou a que fala do jogador virando goleiro pra evitar fazer o milésimo gol num jogo arranjado. Mas o filme teria mais força se incluísse declarações divergentes. Provavelmente a gente nem acreditaria nelas porque as imagens falam mais alto. E, sinceramente, a ausência do nome do Maradona ronda o filme como um fantasminha. Alguém devia abordar o assunto, né? E tem mais: das sei-lá-quantas cabecinhas falantes que surgem no canto inferior da tela, nenhuma é mulher. Pô, não existe mulher no mundo pra falar alguma coisa que preste sobre o Pelé? Até o Kissinger aparece, pelamordedeus! (Quer dizer, se até americano tá gabaritado pra falar de futebol...) Desse jeito o documentário só reforça o preconceito que futebol é um troço essencialmente masculino, onde mulher só entra como mãe ou esposa do jogador, ou como pin-up semi-nua segurando uma bola, à la “Placar”. Esse machismo tá começando a se eternizar mais ainda que o Pelé.

Não sei, talvez “Pelé Eterno” seja do tipo que se gosta à medida que a gente vai associando os acontecimentos a nossa infância. Pessoalmente, admito que eu tava viva no tricampeonato, mas só me lembro de ter ouvido falar do Pelé quando ele foi pro Cosmos. Pra quem viu os gols do Pelé ao vivo em 58 e 62 o documentário deve ser a glória. Quiçá isso explique toda a bajulação incontida do Armando Nogueira...

CRÍTICA: PERTO DEMAIS / Nada de mais

Por motivos estranhos, “Perto Demais” ganhou classificação livre, e só depois alguém percebeu o erro e proibiu pra menores de 14. Se alguma criança incauta viu o filme, deve ter achado um tédio. A temática não é nada infantil, sem falar que há uma cena de sexo pela internet que é, como direi, longa demais. Sem dúvida, “Perto” é pra adultos, uma raridade hoje em dia em que a ambição de todo mundo, grandões e baixinhos, é ser adolescente. Mas nem por isso é uma obra-prima. A história só focaliza o início e o fim de cada caso: dois casais meio que se misturam, discutem muito a relação, discorrem sobre sexo e amor, traem e são traídos, e a conclusão elementar, pra mim pelo menos, foi – os homens são uns pamonhas mesmo. Tudo bem, você pode ter outra interpretação, mas o que dizer da cena final (que, aliás, não entendi a que veio)?

No fundo, esse pessoal, interpretado pela Julia Roberts, Jude Law, Natalie Portman (“Guerra nas Estrelas”) e Clive Owen (“Rei Arthur”), é complicado demais. Basicamente só existe esse ménage a quatre, mais ninguém, assim como no primeiro e melhor filme do Mike Nichols, “Quem Tem Medo de Virginia Woolf?”. O mesmo Mike, quase uma lenda em Hollywood por se recusar a fazer blockbusters, dirigiu “Ânsia de Amar” em 71, que tem suas semelhanças com “Perto”. A personagem da Natalie, por exemplo, é bem parecida com a da Ann Margret em “Ânsia”. Mas nenhuma dessas criaturas eu gostaria de ter como amiga. Não me identifiquei com elas. Falta em “Perto”, além de senso de humor, aquele click, aquele momento em que a gente pensa “Ih, já aconteceu comigo”. Sabe, o tema é sobre a dificuldade em se dizer a verdade pra quem se ama. Isso pras negas deles! Eu não tenho dificuldade nenhuma. Não é o caso de fazer minhas as palavras do Clive e declarar pros quatro, “Obrigado pela sinceridade. Agora vá se f**** e morra”. Mas nosso envolvimento com essa gente é zero.

O papel da Julia é o mais ingrato, já que ela mal muda durante a trama. É fácil ver quem a Renata Sorrah interpretou quando houve a montagem da peça do Patrick Marber em SP. Foi o Patrick que adaptou a peça pro filme. A Julia faz uma mulher neurótica e deprê; em suma, uma chata. A única razão pra que dois homens queiram se casar com ela é que ela se parece muito com a Julia Roberts, ué. Se você acha que tô exagerando, é só sentir a desculpa que a Julia dá pra não transar com o Clive: ela acabou de tomar banho. Hã? E o Clive é quem se sai melhor dos quatro, talvez por ser o mais manipulador. Mas o desnível de talento também fica evidente no confronto entre ele e o Jude. Dez a zero pro Clive.Tanto que a cena mais poderosa é entre ele e a Natalie, que faz uma dançarina de strip tease. Gostei do jeito que ela diz “obrigada” a cada dois minutos.

Mas, sei lá, este é o tipo de filme pra quem acha que “Crash” revela um monte sobre relações humanas. É vazio. A gente já viu uma mulher fotografar a rival em outro drama, “A Insustentável Leveza do Ser”, este sim denso. Lá não tinha mais sentimento? Pros críticos americanos, hiper moralistas, o que mais chama a atenção é assistir a princesa de “Star Wars” fazendo strip e ouvir a Julia declamar um texto sobre, ahn, esperma. Lembra da celeuma causada pelas duas linhas mais fortes proferidas pela Cameron Diaz em “Vanilla Sky”? É por aí. Mas pra gente, que é adulta e não se choca assim tão fácil, “Perto Demais” não tem nada de mais.

CRÍTICA: O OUTRO LADO DA RUA / O outro filme da rua

Como detestei o terceiro exemplar da franquia, “Harry Potter e O Prisioneiro de Chicabon”, quer dizer, acho que é Azkaban, pra mim dá tudo na mesma, não quero falar sobre ele. Só não entendo como os críticos andam dizendo ser o melhor dos três se eu achei disparado o pior. Bom, pra me recuperar do choque, fui ver seu antídoto cinematográfico, que deve ser o brasileiro “O Outro Lado da Rua”. Nada mais distante dos efeitos especiais dos bruxinhos. “O Outro” é um drama singelo, simples que dói, e infelizmente não muito convincente. É também a estréia do roteirista de “Central do Brasil”, Marcos Bernstein. E tem astros sagrados como Fernanda Montenegro e Raul Cortez no elenco. E, no entanto, algo não caiu bem. Talvez fosse o som do cinema, que me fez perder algumas falas, mas desconfio que os diálogos não se encaixavam na categoria “imperdíveis”. Tá, a história, antes de continuar: a Fernanda é uma senhora aposentada que vive em Copacabana, sozinha da vida com sua cachorrinha. Por não ter nada melhor pra fazer, ela gosta de ajudar a polícia, numa versão mais light do Charles Bronson em “Desejo de Matar”, mas sabe, o desejo é o mesmo. Um dia ela vê no prédio em frente o Raul aplicar uma injeção letal numa mulher. Chama a polícia, nada acontece, e os dois se envolvem romanticamente. Olha, só pela sinopse você já desconfia que o Raul não é um serial killer, e que ele praticou eutanásia na esposa, mas a Fernanda leva o filme inteiro pra descobrir isso. A trama é pra lá de previsível, e a culpa é do roteiro.
Mas eu fiquei pensando bastante em outras coisas durante a projeção. Por exemplo, que os velhinhos homens devem ser menos solitários que as velhinhas, até pelo fato de jogarem dominó. Sem falar que viúvo é um artigo de luxo. Pra cada viúvo deve haver dez viúvas, já que o prazo de validade dos homens é menor (e a garantia acaba logo). Me lembrei das senhoras que fizeram um auê com o fechamento dos bingos, quando reclamaram da falta de lazer. Sei não, Copacabana é um bairro cheio de idosos, não dá pro pessoal se reunir e fazer festinhas, conversar, jogar sem valer dinheiro, essas coisas? Tem mesmo que ficar tão sozinho a ponto de espiar os vizinhos (pra que serve a TV, afinal)? Outro item que ficou batucando nos meus neurônios foi quanto ao sexo na terceira idade. Será que a minha geração vai ter tantos grilos como a personagem da Fernanda? Aí o filme acabou e eu saí e minhas juntas rangeram, ó horror, só pra provar que não falta tanto até lá.

CRÍTICA: A PAIXÃO DE CRISTO / Mas o herói ressuscita no final

Ao contrário do que meu nome indica, não sou judia. Inclusive, estudei em colégio católico, já quis ser freira, mas faz tempo que concluí que, infelizmente, o discurso das religiões, em geral, fomenta mais ódio do que amor, mais guerra que paz (sem falar que sempre achei todas as religiões incrivelmente machistas). Então, graças a Deus, sobrevivi à escola católica e hoje estou bastante isenta da culpa imposta pela religião. Isso posto, fui ver “A Paixão de Cristo”, de Mel Gibson, com plena consciência de que o fundamentalismo cristão tão em voga nos EUA apóia o filme, e de que ele está sendo acusado de anti-semita e homofóbico. Será que ele é? Contra os homossexuais, sem dúvida. Herodes é pintado como gay e o diabo usa maquiagem e lança olhares insinuantes a Jim Caviezel, que faz Jesus (depois descobri que Satanás, que mais parece aquela criatura computadorizada de “Senhor dos Anéis”, é interpretado por uma atriz, pra dar-lhe um look mais andrógino ainda). Contra os judeus, não tenho tanta certeza. Certo, eles pedem a morte de Jesus e são estúpidos, e Pilatos é que é um cara legal, mas pelo menos Judas se mostra arrependido de sua traição (e eu fiquei com pena dele). Além do mais, culpar os judeus soa contraditório. Afinal, a história oficial diz que Jesus veio pra cá pra morrer por nós e redimir-nos de nossos pecados (seja lá quais sejam, como diz o rapaz de “Eleição”). Ou seja, Jesus é um sacrifício de Deus para os homens. Sob este ângulo, ninguém além de Deus pode ser acusado de matá-lo. Claro, a gente pode especular sobre que Deus é esse que condena seu próprio filho à morte, mas o filme nunca suscita tal discussão. Porque “Paixão” fala da carne, não do espírito.

E quanta carne... Não me lembro de ter visto um filme tão violento, logo eu que amei “Kill Bill”. Outras aventuras com o Mel, tipo “Mad Max”, têm a violência dos quadrinhos. Mas esta de “Paixão” parece muito real e ininterrupta. Todo santo espinho, chicotada e prego recebido por Jesus é visto em close, em câmera lenta. Nem filme de terror é tão explícito assim. Ver tanto sangue e tortura é perturbador. Tudo bem, condenar “Paixão” por ser brutal seria hipocrisia, já que toda a religião cristã é baseada nesses símbolos sangrentos. Não foi o Mel que inventou. Só não sei qual o propósito de se fazer um filme tão visceral. Tá, o propósito de qualquer filme, mesmo dos clássicos, pode ser questionado. Mas “Paixão” não traz salvação nenhuma. Vamos ver: o verdadeiro horror não é se escandalizar com o que fazem a Jesus. É se escandalizar se fazem isso com qualquer um, ponto final, até com um psicopata demente como Barrabás. Ou a pena de morte é aceitável em alguns casos? A ideologia dominante por trás de “Paixão” (e da sua fonte, a Bíblia) vem à tona quando um dos dois criminosos na cruz diz que ele merece tudo isso, ele sim merece ser punido e sofrer, mas Jesus, não. Sério? O outro ladrão ri e instantaneamente é castigado por um corvo que lhe arranca os olhos. Isso é que é dar a outra face? Esse é o Deus misericordioso? Se bem que esta violência em si não é enfocada, apenas sugerida. Pode crer que se o corvo atacasse Jesus veríamos a cena em todos seus detalhes.

Mas vamos à minha parte favorita da análise, que é a reação do público. Olha, não ouço tanto choro no cinema desde “ET”. O pessoal realmente se comoveu. Lógico que alguns devotos não viram necessidade de se desligar do mundo material, e até atenderam seus celulares durante a sessão. Mas foram minoria. Assim que “Paixão” terminou, ouvi o espectador do meu lado dizer que este era o melhor filme de toda a sua vida. Já eu saí da sala meio em estado de choque. Não entendo nada de budismo, por exemplo, mas sinto que uma religião que tem como símbolo um gordo meditando pacificamente deve passar valores bem diferentes de outras por aí que glorificam o calvário de um barbudo se esvaindo em sangue. O Mel soube captar bem essa relação sado-masô. Minha aposta é que o filme vai ser encampado pelas religiões cristãs por ser fiel à barbárie descrita no Novo Testamento. Como o papa disse, “é como foi”. O velhinho deve saber.

CRÍTICA: DOZE HOMENS E OUTRO SEGREDO / Poupe-me do segredo

O que mais gosto de ver seqüências horrendas de filmes medíocres é que elas fazem o original parecer uma obra-prima. Tô falando de “Doze Homens e Outro Segredo”, continuação de “Onze Homens e Um Segredo” (se alguém se lembrar do segredo leva um doce) que, por sua vez, era uma refilmagem de uma produção bem ruinzinha dos anos 60. Aliás, eram onze os sujeitos? Quem tava contando? Confio no título pra afirmar que eram onze, mas não tenho nem certeza se a soma incluía a Julia Roberts. Bom, agora são doze, mas parecem ser 35, pois os personagens ainda por cima têm família. E o filme gasta um looongo tempo apresentando cada um. Todos perdidos num roteiro confuso. Pra entender a trama eu teria que fazer o esforço descomunal de prestar alguma atenção. E tava difícil, juro. Vi muita gente se contorcendo na cadeira.

Claro que com um elenco desses, quem precisa de uma história? Além da Julia, tem o George Clooney (sem ter o que fazer, fora perguntar por aí se ele aparenta ter 50 anos), o Brad Pitt (charmoso, mas com um penteado feio), o Matt Damon (quem se sai menos pior), o Andy Garcia, a Catherine Zeta-Jones... E praticamente qualquer um que já teve a sorte de trabalhar com o Steven Soderbergh, diretor um pouco, mas só um pouco, acima da média, autor de coisas boas como “Traffic” e “Irresistível Paixão”. Estamos falando de padrões diferentes, certo? Assim: quando pessoas normais querem se reunir, elas vão a um barzinho. Quando celebridades amigas querem se reunir, elas fazem um filme de cem milhões. Só que a gente teria algo melhor e mais honesto se elas só filmassem pegadinhas entre si e erros de gravação. Fazer de conta que existe um roteiro é hipocrisia.

O negócio mais revolucionário de “Doze Condenados” é que quem fez as legendas decidiu fugir do cenário branco, sabe, pra facilitar a leitura do público. Logo, as legendas ficam correndo atrás da parte escura da tela, nem que isso signifique pousar bem no meio do nariz de algum ator. Lembrei daquelas bolinhas pretas que pulavam na tela cobrindo as partes pudentes dos atores em filmes censuráveis como “Laranja Mecânica”. Que mais? Ah sim, pra nós, brasileiros, sobra o gostinho de ouvir uma música do Roberto Carlos. Cantada em italiano, que latino é tudo igual. E ó, que pós-moderno! A Julia Roberts finge ser a Julia Roberts no filme. Não é genial? Pausa pro meu bocejo.

Mal posso esperar a próxima aventura, que deve ser algo como “Treze Homens e Mais um Pretexto Qualquer pra se Ganhar uns Dólares”.

CRÍTICA: OLGA / Olga, o clichê

Depois de passarem o trailer de “Olga” 572 vezes, pelos meus últimos cálculos, finalmente chega o filme em si. E o filme é uma decepção. Quer dizer, eu imaginava que o trailer era cheio de lugar-comum pra chamar público, mas supunha que o longa fosse diferente, mais complexo, mais profundo. E não é. Eu não li o best-seller do Fernando Morais, mas tudo que a gente precisa saber sobre Olga Benário tá em qualquer resenha sobre o livro ou filme: que a comunista alemã e judia se apaixonou por Luís Carlos Prestes, que ele perdeu sua virgindade com ela aos 37 anos, que ela engravidou dele, e que foi deportada por Getúlio Vargas de presente para Hitler, que a assassinou num campo de concentração. Esses são os pontos altos da vida de Olga, vamos dizer assim, e eu pensava, ingenuamente, que todo mundo soubesse deles. Aí vem o diretor Jayme Monjardim declarar que fez um filme pra quem nunca ouviu falar de Olga. Ué, o trailer até podia ser pra essa gente – se é que ela existe – mas o filme tinha a obrigação de nos dar algo mais.

Não. O drama não se cansa de mostrar tudo aquilo que a gente já conhece. E reduz o passado de dois revolucionários, Olga e Prestes, à uma mera história de amor que podia ser sobre qualquer casal. Até a minha história de amor com o maridão daria uma trama singela. Qual a vantagem de contar a trajetória de um casal de guerreiros e deixar de lado a política? O belo "Diários de Motocicleta" não nos fazia pegar em armas, mas causava uma certa nostalgia. Embora a gente não saísse do cinema querendo fazer uma revolução, a gente no mínimo saía com saudade do Che, e com tesão de ver a América Latina unida. A gente sai de "Olga" achando o quê? Ah, que o amor é lindo. E que o nazismo é mau. Eu sabia disso desde "Caçadores da Arca Perdida".

O filme comete todos os clichês pequeno-burgueses (se é que esse termo ainda vale) pra falar de uma revolucionária. Mostra um pedacinho do treinamento militar da durona Olga, antes que ela conheça Prestes, caia de amores por ele, e decida que o valor mais importante do mundo é, no fundo, a maternidade. O Vaticano ia aprovar. E tirando o sacrifício físico da Camila Morgado (perder alguns quilos, raspar a cabeça), a atriz não tá grande coisa. Ela mantém o mesmo tom de voz de discurso, ora se dirigindo a um amigo ou a um auditório lotado. Claro que, comparada à atuação da Fernanda Montenegro, a Camila merece um Oscar. Nunca pensei que algum dia eu ia desmerecer a Fernanda, mas eis a única novidade que o filme nos proporciona. Nossa grande atriz tá perdidaça na história. Dá pra notar que o roteiro aumentou o papel da mãe de Prestes pra que a Fernanda tivesse algo que fazer. Mas isso ao custo d'ela ter que ler cartas melosas pra uma menininha, ó santo Deus. Quem se sai melhor é Caco Ciocler, que faz Prestes. Fora um ou outro olhar babão que ele lança a Olga, ele ao menos cria um personagem interessante. Não sei se ele se parece com o Prestes, mas tá a cara do Ralph Fiennes.

Alguns espectadores que amaram "Olga" andam dizendo que ele é tão maravilhoso em termos de fotografia, som e cenários que... nem parece filme brasileiro. Eu não posso compartilhar de um argumento preconceituoso desses porque, afinal, acho que o cinema nacional tá indo muito bem, obrigado, inclusive na técnica. E "Olga" é o filme mais caro já produzido por aqui (8 milhões de reais, assim, uma porcentagem do que recebe o empresário do Tom Cruise), a gente espera que ele esteja no mínimo bem-feito. Mas a gente também espera mais. Pô, eu que choro em documentário sobre vida de tigrinho nem me emocionei com o filme. Houve um só momento em que verti duas ou três discretas lágrimas. Mas também, nessa hora surge uma mulher em close gritando em câmera lenta, enquanto a música enche a sala e os malditos nazistas lhe tiram o bebê. Só chorando mesmo.

Espero sinceramente que uma multidão lote os cinemas pra ver "Olga", ainda mais agora em que se discute o meio século da morte de Getúlio. Nem que seja pra essa multidão sair falando "Olha só! Os comunistas também amam!" e "Uau! Filme brasileiro pode ter padrão americano!". E como pode... Aliás, é só reparar na confusão de línguas ouvidas no filme. A Olga passa pela Rússia e Alemanha, mas todo mundo fala português. Isso é ou não é tipicamente americano, onde até os marcianos falam inglês fluente?

CRÍTICA: MULHER GATO / Miau para iniciados

Por essa você não esperava: vou defender “Mulher-Gato”, o filme-judas da temporada. Os críticos americanos malham a produção por três motivos: falam mal do diretor Pitof pelo cara ser francês, se irritam com o feminismo da história, e se intimidam pela roupa de Dominatrix da Halle Berry. Nessas horas é que dá pra ver como a maior parte dos críticos é homem... Bom, não é que eu vá elogiar a aventura, eu não me rebaixo tanto, mas “Mulher-Gato” não é, nem de longe, o pior dos filmes baseados em histórias em quadrinhos. Não é pior que “Demolidor”. E pra quem gosta de gato é um prato cheio.
Vamos ser honestos: a ambição suprema de todo mundo é virar gato. Ou virar a Halle Berry. Eu, por mim, na próxima reencarnação quero nascer gato. Agora, claro que tem gente que odeia gato, e eu respeito todas as opiniões, mas acho que entre as sessões de eletrochoque essas pessoas deveriam ser perguntadas se elas também odeiam tigres e leões, que são idênticos a gatos, só que maiorzinhos. Porque os felinos são todos iguais: todos fazem rum-rum, dormem de barriga pra cima, soltam pêlos, tomam banho de língua... Isso posto, tá na hora de me contradizer: no fundo, nenhum gato é igual a outro. Meus gatos, por exemplo, não têm nada contra a chuva ou contra cães. E o Calvin gosta de, hum, como direi, cenoura. Sei que nem deveria falar isso publicamente, já que agora ele pode ser expulso da Associação Internacional dos Gatos.
E vou compartilhar com você, paciente leitor amante de gatos (porque a essa altura só amante de gato continua lendo essas mal-traçadas), a musiquinha favorita que canto pros meus gatinhos aqui em casa. Essa tá no alto do hit parade. Vai com a melodia do McDonald’s, lembra aquela que dizia “Dois hamburgers, alface, queijo, molho especial, cebola, picles, em um pão com gergelim”? (Aliás, não entendo como o documentário que fala mal do McDonald’s, “Super Size Me”, só vai passar no Rio e SP. Tá me dizendo que um filme desses não tem potencial pra blockbuster? Imagina se todas as meninas com tendência à anorexia não iam adotá-lo como filme de cabeceira?). Ahn, voltando, a minha adaptação da canção diz: “Dois gatinhos, selvagens, lindos, fofos, especiais, bons caçadores de hamsters e gerbelins. São os gatinhos! Gatinhos! Gatinhos!”. Tá, talvez você não ache uma obra-prima, mas os gatinhos sempre aumentam o volume do rum-rum quando eu canto essa.
O filme, Lolinha, o filme. Certo. Bom, a mensagem de “Mulher-Gato” é que toda mulher deveria se soltar mais, ser mais gato, mais hedonista. Não é uma mensagem nobre? A história é tão feminista que o produto a ser combatido não é uma bomba atômica, mas um creme de beleza. Nossa heroína tem até uma melhor amiga gordinha, coisa rara. O enredo é aquele que a gente já viu em algum “Batman” de doze anos atrás, quando a Michelle Pfeiffer interpretou a Mulher-Gato, mas não lembro dela. A Halle morre, renasce meio felinizada, veste couro, e sai por aí combatendo seus inimigos. Ela tem o principal super-poder felino, que é se desmaterializar num canto e reaparecer no outro. Mas ela não tem a vantagem das garras retráteis, e, mais importante ainda, não tem cauda. Cauda é algo fundamental prum gato, pois proporciona equilíbrio e indica seu humor. Mas que negócio é esse de chicote? Desde quando um gatinho teria a mínima afeição por roupas de couro e chicotes? O figurino é só pra satisfazer alguma fantasia sado-masô.
O filme sofre com essas contradições. A roupa da Halle é pra adultos, mas a aventura é infantil: não tem palavrão, não tem violência (não dá pra ver os efeitos especiais, que são rápidos demais. Sabe quando você vê um gato passar correndo, e você não vê nada, só sente uma mini-rajada de vento? Assim são as cenas de luta), sexo nem pensar. Quem conhece gato sabe que eles gostam da coisa. Mas, sei lá, apesar de toda a perfeição física e moral dos gatos, acho que eles não rendem bons super-heróis. Um bicho que dorme dois terços do dia?! Aposto que quem odeia gato morre de inveja do estilo de vida que eles levam.
Tirando os diálogos sofríveis e as cenas de ação, “Mulher-Gato” nem é ruim. A Sharon Stone vem como vilã e se diverte no papel, e o Benjamin Bratt surge como interesse romântico da heroína e único policial da cidade. No fundo, ele também é bem felino, no sentido de estar em vários lugares ao mesmo tempo. Ah, o gato principal tem movimentos esquisitos, e deve ter sido gerado por computador, como o Garfield. E pra quem sente falta da Michelle, o filme deixa a entender que existem várias mulheres-gato por aí, e a Halle é apenas uma. Aqui vai uma confissão: eu também sou. É verdade que tenho uma certa dificuldade pra passar entre barras de prisão, mas...

CRÍTICA: MENINA DE OURO / Peso leve

Vi “Menina de Ouro” em Curitiba, porque aqui em Ville, Ville o Oscar está sendo solenemente ignorado e os cinemas seguem passando gosmas como “Hitch”. “Menina” é, junto com “Sideways”, o melhorzinho dos cinco que concorrem à estatueta dourada (tudo que posso dizer sobre “Ray” é que nunca me mexi tanto numa cadeira de cinema. E eu não estava dançando ao som da música do Ray Charles). “Menina” tá longe de ser uma obra-prima. Não dá nem pra começar a compará-la com “Imperdoáveis”. Sei que é cinismo meu e tudo, mas quando um filme é assim tão elogiado, eu tenho que pensar: o que os críticos estariam dizendo se o troço não levasse a assinatura do Clint Eastwood?

Deixe-me reafirmar que gostei de “Menina”. Fiquei bem emocionada, e a história de uma moça pobre (a Hilary Swank, que já ganhou o Oscar por “Meninos Não Choram”) que decide lutar boxe para fugir do seu destino de americana pobre é interessante. Empatizei com as cenas em que ela come sobras de comida do restaurante onde é garçonete. Depois de relutar muito, o Clint, dono de um ginásio decadente, aceita treiná-la, e o Morgan Freeman narra a coisa toda. Gostei também dos diálogos entre o Clint e um padre. E respeito o Clint. Não é por nada não, mas o cara tem 74 anos. Seus colegas de profissão dessa idade levam estatuetas honorárias pelo conjunto da obra, e lá está ele, firme e forte, concorrendo ao Oscar por quase todo santo filme que faz. E acho que a prova maior que “Menina” me cativou é que gostei da película apesar dela tratar de boxe, algo que odeio. Abomino um esporte cujo objetivo é colocar o adversário em estado de coma, e não lamentaria em nada se o boxe fosse tão proibido como, sei lá, farra do boi ou rinha de galo.

Até agora só falei bem, certo? Vamos aos defeitos. O roteiro é simpático, mas totalmente convencional. Este é um filme que decididamente não traz inovações. Já vimos muito disso antes. A Hilary repassa as lições de vida que aprendeu em “Karatê Kid 4”, o Morgan basicamente repete seu personagem de “Sonho de Liberdade”, e o Clint, bom, o Clint tá sempre fazendo o mesmo papel (e é ótimo nisso). “Menina” evoca quase todos os filmes sobre esporte que falam de sacrifício e superação. Mas, sabe, como é do Clint, e como o ritmo é artístico (leia-se mais lento), a gente perdoa os clichês. Por exemplo, tem uma cena em que o Clint e o Morgan batem papo sobre meias furadas, e você não faz idéia de como crítico adora quando personagens cinematográficos travam diálogos “autênticos”. Se bem que os três personagens centrais são perfeitos demais pra serem verdadeiros. Principalmente o da Hilary, a tal menina de ouro, que tem um coração de ouro. O filme fica meio maniqueísta demais pro meu gosto lá pelo final: a família da Hilary não presta, e a pugilista ex-prostituta é tudo de ruim (inclusive a luta entre ela e a Hilary me lembrou o duelo racista de algum desses “Rockys” da vida). Sem falar que “Menina” é politicamente duvidoso. Faz parecer que previdência social serve pra sustentar vagabundo que não entende a glória oferecida pela labuta, e que pobre que trabalha duro, esse sim, triunfa.

E, no entanto, o que é a natureza humana... Num dos pontos mais dramáticos do filme, quase no fim, uma espectadora decidiu ir ao banheiro. E tropeçou, caindo no longo corredor escuro do cinema. Nessa hora, o público mandou às favas o melodrama de “Menina” e morreu de rir com a tragédia alheia. A tragédia da Hilary ficou em segundo plano. Ou isso significa que a platéia não tava tão envolvida com a trama quanto o Clint desejaria ou que ela tava tão, mas tão envolvida que qualquer distração serviu de alívio cômico. Pra mim pareceu que é mais fascinante a tragédia das pessoas de carne e osso. Sempre num cinema próximo de você.

CRÍTICA: MENINAS MALVADAS / Sobrevivendo à adolescência

Ontem fui ver um filme pelo qual não dava nem bom-dia, mas não é que o negócio é surpreendentemente legal? Apesar do título nem um pouco convidativo, “Meninas Malvadas” é uma delícia até o seu terço final. Pra quem quiser conhecer a selva que é o sistema de castas das escolas americanas, “MM” é provavelmente a melhor pedida no gênero dos últimos cinco anos, desde “Eleição” (1999). Sabe do que eu tô falando, né? Há vários filmes bons cobrindo esse universo: o já-clássico “Clube dos Cinco” (85); “Atração Mortal” (89), outro que desanda do meio pro fim; o definitivamente estranho “Bem-vindo à Casa de Bonecas” (97); e até “Carrie, A Estranha” (76) e “Beleza Americana”, pelo menos em alguns pedaços. Ah, só pra explicar: “Curtindo a Vida Adoidado” (86) é ótimo, mas não se concentra no cotidiano escolar, e eu gosto bastante de “As Patricinhas de Beverly Hills” (95), mas a natureza desse último não o inclui na mesma categoria de “MM”. “Patricinhas” não condena a segregação nas escolas, enquanto “MM” é extremamente ácido até começar a emitir mensagens edificantes (se bem que há uma mensagem nobre: garotas, parem de chamar umas as outras de “piranhas”, “galinhas”, “vadias” e afins, se não fica fácil pros meninos repetirem os insultos). No final eu tava torcendo pra que virasse “Carrie”, com direito à balde de sangue caindo e tudo, mas não tive essa sorte.

“MM” já começa bem, com uma narração em off da protagonista, uma menina de 16 anos que vivia com os pais na África e estudava com eles, sem nunca ter freqüentado uma escola normal, dizendo saber que a gente acha esse pessoal que estuda em casa muito esquisitão. Corta pra uma turma de caipiras e um deles fala algo como “E no sétimo dia Deus criou o rifle, pra que o homem pudesse acabar com os dinossauros... e os homossexuais”. Os outros rapazes entoam um “Amém” em coro. Quer dizer, se você, como eu, conhece membros de seitas assim, sabe que rir deles é prazeroso. A moça, interpretada por Lindsay Lohan, se comporta como uma marciana, acha que o ídolo teen Ashton Kutcher é um grupo de rock, essas coisas. Mas, por ser bonitinha, é convidada pra integrar a turma das gostosonas do colégio, que são também bem malvadas. Aceita, pra poder desmascará-las, e acaba virando uma delas. Ou seja, a história em si é meio bobona, mas tem tanta gracinha, tanta crítica social, que acaba conquistando.

E não são só as piadinhas que funcionam, as gags visuais também. A loira burra que faz uma das melhores amigas da líder patricinha está perfeita, e todas suas participações são hilárias. A fantasia de halloween da nossa heroína, a pobrezinha caindo dentro do lixo – tudo isso diverte. Entre as gargalhadas mais inteligentes, a que mais gostei envolve a patricinha-mór avisando suas súditas que precisa perder um quilo e meio. Como suas serviçais não estavam prestando atenção, ela lança um olhar mortal, ao que elas acordam e declamam: “Imagina, querida! Você é linda! Maravilhosa! Não precisa!”. Também gostei do pai da protagonista não saber que quando a pessoa está de castigo ela não pode sair. Bom, dá pra ver que o roteiro é esperto até pelo apelido das Barbies, que são chamadas de “Plastics”. Essa é uma referência a uma das linhas mais famosas do cinema, tirada de “A Primeira Noite de um Homem”.

Mas de que interessa tudo isso se a gente não é (graças ao bom Deus) americano? Ué, é sempre bom conhecer o inimigo. E, além disso, não tenho certeza de que toda essa hierarquia social só funciona por lá. Um dia eu, espantada, perguntei pros meus queridos adolescentes: “Vocês realmente se importam tanto com o que seus colegas pensam?!”. E eles, olhando pra mim como se eu fosse uma total anormal, responderam que sim, claro, você não? Pois é, se tiver algum adolescente lendo isso aqui e quiser uma palavra de apoio, eu dou: vai passar. Algum dia você não vai dar a mínima pro que os outros pensam e falam de você. Ou tô sendo ingênua? Amadurecer não é aceitar que os outros podem ser diferentes, mas que a gente não tem nada com isso? E que diferenças são algo positivo? Ou isso é liberdade? Ou maturidade e liberdade são quase a mesma coisa? Sei lá. Mas vai passar, acredite.

CRÍTICA: SOB O DOMÍNIO DO MAL / Sob o domínio do país em guerra permanente

Fui ver “Sob o Domínio do Mal” e me sentei entre o maridão e a minha mãe. E o que aconteceu foi uma sinfonia de roncos em dolby-stereo-surround-sound. Eu não dormi, que o thriller até que é bastante bom, mas eles... Se você foi ao cinema nos últimos meses, deve ter visto o trailer umas 55 vezes, em média. Eu não agüentava mais encarar aquele trailer, ainda mais que eles contam tudinho. E fica pior se você conhece o original. “Mal” é uma refilmagem de um clássico de 1962 com o mesmo título (“The Manchurian Candidate”, em inglês – tudo a ver com a tradução), a obra-prima do Frankenheimer com o Frank Sinatra no papel principal. Esta deve ser a melhor paródia política que Hollywood já fez. E claro que, comparado ao clássico, esta refilmagem sofre.

O Jonathan Demme, do grande “Silêncio dos Inocentes”, foi ousado em querer refilmar uma obra assim tão importante. Ele trocou o Frank pelo Denzel Washington e, lógico, atualizou a trama. Agora ela não começa na Guerra da Coréia, mas na primeira Guerra do Golfo. O legal é que dá pra refazer o filme daqui a quarenta anos que os Estados Unidos já vão ter uma nova e vasta gama de guerras pro diretor escolher. Existe país mais bélico? E depois eles querem que a gente fique com medo que o Irã tenha bomba atômica, quando a única nação a usar arma nuclear foram eles, ué. E agora, com a reeleição bushenta, os americanos tão mais fundamentalistas do que nunca. Anyway, o filme. O Denzel, um major, desconfia que seu colega herói de guerra e atual candidato a vice-presidente não age por conta própria. Quando o Denzel descobre um chip implantado nele próprio, ih, pronto, suas suspeitas de lavagem cerebral se confirmam. A história envolve toda sorte de politicagem e teorias da conspiração. A Meryl Streep brilha como mãe maquiavélica do vice.

O problema é que o original tá cheio de humor, e este aqui é de uma seriedade a toda prova. No de 62, em plena guerra fria, bem quando mataram o Kennedy, a lavagem cerebral é feita num grupo de homens que pensa estar numa convenção de floricultura. O que ativa o controle do nosso anti-herói é uma carta de baralho, a dama de ouros. O clímax ocorre numa festa à fantasia, quando alguém aparece vestida de carta de baralho. Contando assim é ridículo, e o filme tem um incrível senso do ridículo, mas não liga pra isso. Ele não se leva a sério. E a mãe do carinha trata seu marido (um senador) como se ele fosse um bebê, dizendo pra ele coisas como “Agora vá embora que os adultos precisam conversar”. Isso em pré-revolução sexual! Esta refilmagem não tem nada disso. Sai o absurdo delicioso, entra uma trama política solene e meio confusa. Há várias cenas que parecem estar sobrando. Por exemplo, todo o discurso do Denzel sobre uma medalha de honra, serve pra quê? As cenas imitando noticiário da CNN são monótonas, e há flashbacks demais da batalha. Se a gente sabe que essa batalha não existiu, por que ficar repetindo as seqüências? Mas o pior é o final, que deturpa o original e vai contra o “domínio do mal” que tava sendo exercido até então. A mensagem do fim é que o bem triunfa, e que dentro de todo americano, mesmo aquele cerebralmente lavado, há um herói patriota querendo sair. Ainda assim, “Mal” é legal, vale ser visto. É só não esperar que ele se iguale ao original. E ir bem descansado pra não dormir no cinema, que coisa feia.

CRÍTICA: MATADORES DE VELHINHA e TERMINAL / Dois filmes de auteur, um ator

Hoje vou falar não de um, mas dois filmes, e a única coisa que eles têm em comum é o Tom Hanks. O primeiro é “Matadores de Velhinha”, refilmagem de uma comédia britânica de humor negro de 55, que eu vi faz muito tempo (não na década de 50, mais tarde) e não lembro nadinha além de que é bem divertida. Bom, este “Matadores” de agora não é muito legal, e se você acha que estou sendo condescendente, acertou – você precisava ver a cara dos meus colegas espectadores, que odiaram o negócio com todas as suas forças. Pra ser sincera, eu tinha esquecido de quem era a direção, e os créditos iniciais não disseram, mas não precisei mais que dez minutos pra concluir que só podia ser dos irmãos Coen. Não que “Matadores” seja uma obra autoral (é, em parte), mas é que só alguém com a reputação lá em cima pra tardar tanto pra começar um filme. Não é exagero assumir que a comédia demora dois terços do seu tempo pra ter início. O terço final até que é engraçadinho, mas antes de chegar lá o público já tá espumando por causa de tanta exposição de personagens que não são necessariamente interessantes. Precisa mesmo mostrar uma missa gospel inteira?
Eu sou fã número um dos Coen, “Fargo” é uma obra-prima, “Arizona Nunca Mais” quase, e até seus projetos mais comerciais, como “O Amor Custa Caro”, são agradáveis. Mas “Matadores”, sobre um grupo desastrado que assalta um cassino, certamente pertence ao lado B da filmografia deles. Cinco minutos de “Um Peixe Chamado Wanda”, em que a ex-trupe Monty Python tem que liquidar uma velhinha e acaba, sem querer, eliminando seus três yorkshires, já são infinitamente superiores a qualquer cena desta última investida dos Coen. Tom Hanks se sai bem num papel atípico, mas seu personagem de fala erudita dá nos nervos por contribuir com a enrolação. Como eu disse, eu gostei do terço final, se bem que até lá metade da platéia já tinha deixado o cinema xingando a mãe dos Coen.

O segundo filme do Festival Tom Hanks que assola o país é “O Terminal” que, apesar de não ser uma comédia deslavada, faz rir muito mais que “Matadores”. Nessa aventura do Spielberg, o Tom faz um pacato carinha de um país fictício que chega a Nova York e acaba morando no aeroporto durante meses. Ou seja, uma situação à la Capra em que o Tom encarna o James Stewart direitinho. Dizem que a trama é baseada numa história real de um iraniano que tá vivendo no Charles de Gaulle há quinze anos. Olha, eu até posso acreditar que isso aconteça na França, mas nos EUA pós-11 de setembro, com toda aquela paranóia e trogloditice com os estrangeiros?! Duvido. Todo mundo é bonzinho com o Tom, tirando o chefe de segurança interpretado pelo Stantey Tucci, que também não é má gente. E mesmo assim vem um superior dele pra recordar que os EUA são a terra da oportunidade, um país famoso pela sua, ahn, compaixão (diga isso pros iraquianos que tiveram sua nação salva, embora alguns milhares deles tenham tido que morrer no processo, mas é o preço da liberdade etc). A vida do Tom no aeroporto é melhor que a vida na maior parte dos países subdesenvolvidos. Ele até arranja um emprego ganhando 19 dólares a hora e, de lambuja, tem um caso com a Catherine Zeta-Jones. Quer dizer, é coisa de cinema, sem a mínima semelhança com a realidade. E no entanto “Terminal” é bonitinho, e a última linha diminui um tiquinho a patriotada. O filme é o contrário de “Matadores”: aqui a peteca despenca no seu terço final, mas até lá o Tom já nos conquistou.

Não é um grande Spielberg, claro, apesar de ser mais “autoral” que seus dois últimos (e ótimos) filmes, “Minority Report” e “Prenda-me se For Capaz”. Pelo menos o diretor consegue destilar toda sua confiança na natureza humana. E quem mais adequado pra fazer um sujeito puro e simples que o Tom? Em “Matadores” ele também faz um sujeito puro e simples, só que com um vocabulário um tanto esquisito. Quando ele põe seu desempenho puro e simples no nível mais avançado a gente recebe a carga tóxica de “Forest Gump”. Mas, com exceção desses momentos difíceis na história da humanidade, o Tom é sempre bom.

CRÍTICA: KILL BILL VOL 2 / O fator Bill

Depois de uma longa e angustiante espera, "Kill Bill – Volume 2" enfim chegou. E, embora tenha adorado este segundo capítulo, gostei mais do primeiro. Grande parte dos críticos prefere a parte dois, se bem que tem muitos que detestaram o primeiro, e gostar do segundo parece uma forma de redenção ao óbvio talento do Tarantino. Mas não sei, o primeiro tinha no mínimo um personagem marcante, a colegial assassina Gogo, e maravilhas como o desenho animado. Bom, na realidade não se vai longe discutindo qual é melhor, já que ambos são o mesmo filme, dividido em duas partes. Ainda bem que deixaram o Taranta lançar cinco horas de muita ação. Já pensou se ele tivesse que lançar um só filme de três horas, o que o mundo estaria perdendo?

Tá, este meu último comentário foi mais que sarcástico. Foi injusto. O Taranta acrescenta um monte pro mundo do cinema. Na empreitada da vez a Uma Thurman continua matando gente pra se vingar do pessoal que massacrou seu ensaio de casamento. E quem ela quer matar mais que nada é o mandante de tudo, o Bill. E dá-lhe toneladas de referências a filmes B, trash, kung-fu, western... Tem uma cena em que a Uma é enterrada viva e a tela fica escura por vários minutos, a gente só ouve a respiração e os gemidos dela, e se sente dentro do caixão. Tem olho arrancado e muitos diálogos, a marca registrada do Taranta. Foi ele quem incorporou ao cinema mainstream os diálogos aparentemente banais, desses que não acrescentam muito ao desenvolvimento da trama. Sabe, bandidos conversando sobre sanduíche e música da Madonna. Aqui em "Kill Bill 2" alguém fala sobre o Super-Homem. Este é um dos temas do filme, como pessoas incomuns levam uma vida comum quando não estão por aí matando gente. O alter-ego do personagem do Michael Madsen, por exemplo, é de dar dó. Ele é uma máquina mortífera, mas no dia-a-dia sofre humilhações do seu chefe, um dono de boate de strip-tease onde trabalha como segurança. Tadinho.

Minha teoria pra explicar porque gostei mais do primeiro que do segundo é o Fator Bill. O Bill não aparece no primeiro, só a voz dele, mas aparece em doses cavalares no segundo. Uns amigos estavam torcendo pra que a Uma matasse logo o Bill, porque o cara é chato demais. Eu não achei o Bill chato, mas há problemas na construção do personagem. Não é culpa do David Carradine, claro (aliás, o Taranta escreveu o papel pensando no Warren Beatty, e só depois chamou o ex-gafanhoto). A explicação do Bill pra ter feito todas as malvadezas com a Uma é a frase mais engraçada e ridícula do filme, "Eu exagerei" ("I overreacted"). Isso é lá razão que se dê? Quer dizer, tudo se resume a uma briguinha conjugal. Tudo bem que a história de "Kill Bill" (os dois volumes) é o que menos importa. A trama é pra lá de simples. Só que esta segunda parte sofre por dar importância demais a um personagem mal-acabado.

Outra coisa que me incomodou um pouco são as inúmeras referências à beleza da Uma. Praticamente todo mundo tem algo a dizer sobre o quão linda ela é. O Taranta pode estar apaixonado, mas não precisa louvar sua musa o tempo inteiro. O pior é que a frase que fica é a única voz do contra, a do coveiro que afirma "Já vi melhores". Mas essas são implicaçõezinhas minhas com um grande filme. Agora é torcer pra que o Taranta vire um Woody Allen, no sentido de produtividade, e comece a fazer cinema todos os anos. Tá, talvez um filme por ano seja demais, mas um a cada quatro anos também é. A gente não merece esperar tanto.

Leia sobre Kill Bill Volume 1 aqui, aqui e aqui.

segunda-feira, 29 de novembro de 2004

CRÍTICA: A VILA / Pintou um clima

É difícil escrever sobre “A Vila” sem ser a vilã de sempre, aquela acusada de contar o final dos filmes. Qualquer coisa pode levar alguém a desvendar o fim, então vou ir bem devagarinho, na ponta dos pés, pra não estragar nada. Quer saber? Aconselho que você leia todas as críticas só depois de ir ao cinema. Antes, pra quê? Pra saber o resuminho do filme? Bom, mas não é que eu adorei “A Vila”? Outros críticos muito mais gabaritados do que eu andam soltando os cachorros, principalmente os americanos (os críticos, não os cães infiéis), que parecem ser porta-vozes do fascismo e odeiam tudo que vá contra os EUA. Não acredita? Veja como eles detestaram “Dogville” e aquele documentário que jamais vai chegar aqui, já perdi as esperanças, chuif, “Fahrenheit 9/11”. Mas não me importo de ser a única outra pessoa a admirar “A Vila”, além da mãe do Shyamalan.

Ah, o Shya! Não dá pra negar, o cara é um auteur, tem estilo. “Sexto Sentido” é bárbaro e “Corpo Fechado” é bem razoável. Eu odiei “Sinais”, aquele um em que ETs que não gostam de água fazem círculos no milharal do Mel Gibson. Tanta coisa pra se fazer no milharal do Mel, e eles fazem círculos! Muita gente adorou “Sinais” e me odiou por eu ter odiado ahn, tá ficando repetitivo, eu sei. Claro que respeito a opinião de todos e que opinião é isso mesmo: opinião, não existe certo e errado, mas é gratificante saber que, mais uma vez, eu estava certa e os energúmenos de plantão estavam redondamente enganados. Hoje o próprio Shya diz que “Sinais” é seu pior filme. Ok, ok, ele não diz isso com todas as letras, que o suspense ufológico ainda deve estar rendendo uma grana-preta em vídeo, mas ele confessa que é sua obra menos pessoal. E é. Agora o Shya volta à boa forma e faz seu melhor filme desde aquele do menininho sussurrando que vê pessoas mortas.

O problema é que o trailer de “A Vila” é uma enganação só, e quem acreditar nele pode se desapontar. Ele passa toda a idéia de um terrorzão. Tem até cenas mentirosas que não estão no filme, como a de um garoto de costas pro bosque. Quero dizer, a cena tá lá, mas a resolução da cena não é a mesma, pelo que me lembre. “A Vila” não traz horror. Ao invés dos sustos fáceis, o Shya quis criar um verdadeiro clima de medo que me paralisou durante a sessão. E acabou fazendo uma bela alegoria, parábola, metáfora (chame como quiser pra simular erudição) sobre a América e uma crítica severa ao Bush.

Ahn, a história? Não é nem sobre o medo. É sobre a fabricação do medo. Vamulá, na pontinha dos pés. Passa-se em 1897. Os cidadãos de uma vila não podem vestir vermelho (o que cria uma incrível fotografia sem tons avermelhados) porque essa cor atrai criaturas que vivem no bosque. Eles chamam os mostrengos de “Aqueles de Quem Não Podemos Falar”, que é como eu me refiro aos eleitores do Bush pra não xingá-los. No começo eu também dei pra xingar o Shya porque ele mostra brevemente as criaturas, que emitem barulhinhos idênticos aos dos ETs franceses de “Sinais”, e eu pensei, respeitosamente: “Sua anta! Pra que mostrar? Sugerir é mais eficaz!”. Mas tudo tem explicação. Dessa vez ele acertou.

O Shya é muito audaz. Um dos personagens principais some no meio da trama, como em “Psicose”. E adorei como o diretor aparece no filme, à la Hitch. Sei que ele aparece sempre, mas aqui ele foi mais sutil, ficou melhor. Ele monta um clima de suspense irritante que dura o tempo inteiro. Até numa cena romântica e meio longa entre dois pombinhos, o Joaquin Phoenix e uma tal de Bryce Dallas Howard (que está muito bem, só espero que ela resuma seu nome artístico pra dois nomes pra que a gente possa se lembrar e assim parar de se referir a ela como “a filha do Ron Howard”), a câmera enfoca um grande nevoeiro que mantém a tensão. Um dos jeitos mais legais do Shya criar esse clima é pela falta de “reaction shots”. Não sei o termo em português, sorry. Mas é assim: no cinema comercial, enquanto um ator fala, há cortes para o ator que está ouvindo, pra gente saber a reação dele. O Shya elimina várias dessas cenas. Então um ator fica falando sozinho, e perto dele pode estar o perigo. É assustador. Outras coisas assustadoras que contribuem pro suspense são o William Hurt de barba, a Sigourney Weaver sem maquiagem, e o Adrien Brody como o idiota da aldeia. Não, tô brincando. Todo o elenco tá bem, mas a única que se destaca é a filha do Ron Howard. Porque “A Vila” não é um filme de atores, é de clima. E o clima é lento e cheio de névoa. E ainda por cima fala mal dos americanos! O que mais a gente pode querer? Eu adorei e até quero ver de novo.

CRÍTICA: TRÓIA / Em Roma, faça como os troianos

Sabe, eu até gostei de “Tróia”, o novo filme de 200 milhões de dólares da semana. Ele é bonitinho, cheio de ação, e nem me pôs pra dormir no meio de uma das suas 5,437 batalhas. Mas de empolgante, empolgante mesmo, só quando aparece o bumbum do Brad Pitt. De todo modo, o mais legal da história é constatar quanto a gente sabe, ainda que de relance, sobre mitologia grega. Por exemplo, o filme é baseado no poema épico de Homero, “Ilíada”, cujo principal destaque é o guerreiro Aquiles. Pois o maridão me confidenciou no final da exibição: “Eu ficava pensando em alguém falando, o segredo do Aquiles tá no cabelo. Aí me lembrei que não era o cabelo. E não era o Aquiles”. Já a minha queixa é mais prosaica. Já que é o Brad que faz o Aquiles, por que se fixar nessas coisas antigas como o calcanhar do sujeito? Não podia ser o, sei lá, berimbau de Aquiles? Por que Hollywood não ousa mais nas suas superproduções?

Outro ponto que todo mundo conhece é o cavalo de Tróia, mas sua aparição no filme é anti-climática. Nem achei o eqüino muito bem-feito. Aliás, o negócio é o maior elefante branco no meio da sala, não dá pra entender porque os troianos insistiram em abrir os portões da cidade pra abrigar aquela monstruosidade. Ou melhor, dá. Os gregos eram ligadões nos seus deuses, que regiam tudo que acontecia na vida deles. Mas o filme deixa os deuses totalmente de lado pra se concentrar nas lutas. Entra a ação, sai a motivação. Fica um pouco superficial. E é claro que eu sabia que, na briga entre o Brad e o Eric Bana, Aquiles ia ganhar. Como eu sabia? Ué, alguém já ouviu falar num Heitor? E a escrava-amante do Aquiles chama-se Briseida, um nome que graças aos deuses não pegou na civilização ocidental.

“Tróia” rendeu altas conversas-cabeça entre eu e o maridão. Em uma delas, eu perguntei: “Sabe a coisa mais inteligente que os troianos fazem?”. Ele: “Quando eles gritam ‘Recuar! Recuar!’?”. Eu: “Não, quando eles atiram as flechas de fogo no chão e depois mandam as bolas de feno. Mas quer dizer que você seria um covarde de marca maior numa guerra?”. Ele: “Dos grandes. Desses pra entrar pra história”. E sentimos falta de maiores informações no fim do filme, quando ele simplesmente acaba. A nossa aposta foi que o público tava indo direto pra internet pra saber mais sobre esses incríveis fatos ocorridos 1200 anos antes de nascer o protagonista do filme do Mel Gibson. Afinal, tudo que a gente sabe a gente aprende no cinema.


TUDO QUE VOCÊ JAMAIS QUIS SABER SOBRE MITOLOGIA GREGA MAS A LOLINHA DECIDIU CONTAR DO MESMO JEITO

Fiz uma rápida pesquisa em alguns sites e enciclopédias e descobri toda a verdade sobre esses personagens que a gente vê no filme. Quer dizer, a verdade vindo de uma mitologia que narra que um dos poucos troianos a desaconselhar trazerem o famoso cavalo pra dentro de Tróia é morto por um monstro saído do mar. Eu contei isso pro maridão, e ele: “Ah, se foi isso que aconteceu, tudo bem”. Mas a mitologia grega tá tão cheia de adultérios, assassinatos e vinganças que é sempre instigante. Quase tanto quanto o Velho Testamento. Então lá vai:

- Agamênon, o vilão do filme por ser rei da Grécia e desafeto de Aquiles, é personagem de várias tragédias. Foi ele quem sacrificou sua filha Ifigênia para acalmar os mares na ida dos navios a Tróia. Quando voltou da guerra, foi assassinado pela esposa Clitemnestra (um nome quase pior que Briseida). Sua morte foi vingada por seus filhos Orestes e Electra. Tem uma trilogia inteira do Ésquilo falando disso. O Complexo de Electra, versão feminina do de Édipo, é referência a Agamênon e Electra.

- Heitor e Páris, príncipes de Tróia, foram apenas os dois filhos mais famosos entre os cinqüenta (é, eu disse 50) que Príamo teve. Príamo, interpretado pelo eterno “Lawrence da Arábia” Peter O’Toole, foi o último rei de Tróia.

- Aquiles é filho da deusa Tétis com um mortal. Uma profecia disse a Tétis que seu rebento seria um grande guerreiro mas, como nem tudo é perfeito, morreria em combate. Pra tentar quebrar essa tendência, Tétis banhou o bebezinho Aquiles num rio, mas o segurou pelo calcanhar, que, como não foi molhado, tornou-se o seu, bem, calcanhar-de-Aquiles.

- Páris foi outro que teve uma infância difícil. Foi abandonado ao nascer porque uma profecia dizia que ele seria responsável pela ruína de Tróia (bingo), e criado por pastores. Mais tarde Afrodite lhe prometeu o amor de Helena, e o rapaz, provavelmente influenciado por esta promessa, aproveitou uma missão de paz a Esparta e pumba, pegou a mulher do rei.

- Helena é a única filha mulher de Zeus e uma mortal, e a mortal é justamente Leda, aquela que Zeus disfarçado de ganso seduz ou estupra, dependendo da versão. Desde bem pequena, Helena passa a ser considerada a mulher mais linda da Terra. Tem quem jure que Helena foi raptada por Páris, não ido a Tróia de livre e espontânea vontade. Mas outras fontes contam que ela e Páris levaram uma fortuna do marido ao deixar Esparta, então... Mesmo assim, ao contrário do que mostra o filme, seu marido Menelau não morre em Tróia. Ele recupera Helena, a perdoa e a leva de volta pra Esparta, onde vivem felizes para sempre (tá, essa última parte eu inventei).

- Olha só como as celebridades já ficavam entre si naquela época. Foi o único filho de Aquiles quem mata Príamo, o rei de Tróia. Pouco depois ele se casa com a única filha de Helena e Menelau. E aproveita também pra se casar, ao mesmo tempo, com a viúva de Heitor, ó vida. Se os deuses podiam, por que não os reles mortais?

CRÍTICA: VAN HELSING / Troque o Van Helsing pelo Van Bora

Isso de juntar vampiros, lobisomens e a Kate Beckinsale num pacote só não é novidade. O tenebroso “Underworld” fez isso. Eu disse tenebroso? Comparado a “Van Helsing”, “Under” é uma obra-prima. “Van” ainda inclui a criatura do Frankenstein, o chato do Hyde de “O Médico e o Monstro”, e o Hugh Jackman (o Wolverine de “X-Men”) no papel-título caçando todos eles. Perguntei pro maridão qual era seu monstro preferido no filme, e ele respondeu que seria o Hyde, que aqui é outro mix entre Hulk e Shrek. Eu: “Por quê, só porque ele engole charutos?”. Ele: “É, tem esse problema d’ele fumar. Mas pelo menos é divertido”. E todas as outras aberrações são de um tédio monumental, certo? Eu dormi feito bebê em várias partes de “Van Hallen”, apesar da barulheira da insistente trilha sonora. Quando eu não tava dormindo eu tava bocejando, e sentia a minha boca se alongando tal e qual a dos mostrengos. Sem os dentes, claro.

O diretor Stephen Sommers, o mesmo de “A Múmia”, dedica essa atrocidade a seu pai, a quem ele obviamente nunca foi muito chegado. Você pode até achar massa os cenários e efeitos especiais de “Van Anta”, mas lembre-se: a superprodução custou 200 milhões de dólares. Hum, com essa grana dava pra botar mais 5 reais no salário mínimo brasileiro sem aumentar o rombo da previdência. Mas não podemos misturar arte e política. Afinal, os americanos gastam os tubos pra fabricar cinema de entretenimento de altíssima qualidade. Burp. Desculpe, acho que arrotei.

E por falar em qualidade. Os diálogos aqui são o fim. Por exemplo, o destemido Van Bam-Bam dá um treco pra Kate e a instrui a cortar o dedo de um carinha se ele não cooperar (esses são os mocinhos da história. Como sabemos pela Guerra do Iraque, até os heróis têm que usar métodos de tortura). A Kate replica: “Vou cortar outra coisa”. Um grupo de guris perto de mim riu e gritou “Caraca!”. É, acho que era a isso que ela se referia. Daí o assistente do Van Helsing, terrível contra os insetos, só contra os insetos, que funciona como alívio cômico sem graça, desenvolve uma arma que imita a luz do sol, mas ele não sabe pra que serve. Vejamos: vampiros... Trevas... Morcegudos morrem quando expostos ao sol... Mas nossos brilhantes heróis só vão descobrir a utilidade de tal invenção no final, sabe? E lógico que existem várias horas do chá na película. Eu explico. O vilão vai morder a mocinha. Basta mordê-la e ela morre, ou algo terrível desse tipo. Mas antes o vilão passa uma eternidade ameaçando a beldade, e ela se salva na hora h. Troca o disco, gente! Quer mais? Olha, tem uma cena muito esquisita: um lobisomem tá meio agachado, de costas, e o assistente aciona um símbolo fálico automático e parte pra cima dele a mil. É só minha imaginação fértil ou nada é por acaso? Ah, e tem também a indefectível cena de veículos explodindo. O chato é que, como a ação se passa no século 19, não há carros. O jeito é carruagem ir pelos ares. Agora, o que possivelmente pode fazer uma carruagem explodir? A flatulência dos cavalos?

Outro ponto legal é o da censura. “Van Bobo” é PG-13 nos EUA, ou seja, os menores de 13 devem ir acompanhados de seus infelizes pobres pais. Mas como uma aventura tão violenta, com mortes e monstros o tempo inteiro, pode ser classificada assim? Fácil. É só tirar qualquer conteúdo sexual e tudo passa. Os lobisomens são 100% peludos mas, quando eles voltam à posição Homem, eles já surgem com uma tanga à la Tarzan. Se pelo menos o filme mostrasse os balangandãs dos sujeitos, talvez eu não tivesse dormido tanto durante a sessão. E note que as noivas do Drácula viram monstras voadoras nuas, mas – detalhe – sem os mamilos dos seios. Este detalhe é fundamental. Mamilo de seio é quatro anos a mais de censura na certa! Viva o liberalismo americano!

A menos que “Van’ Bora” vá (Deus proíba) indiscutivelmente mal na bilheteria, pode ir se preparando pra parte 2. Eu adoraria prestigiar a continuação, mas estarei ocupada na ocasião afiando meus crucifixos. Ou são estacas que matam esse lixo puro?